Guia do codificador (rotulagem humana, primeira onda)

Guia do codificador (rotulagem humana, primeira onda)

Versão 2, 27/09/2026, revista em 28/09 antes da calibração (incivilidade fiel a Coe et al., 2014; função “informação”; outros pelo nome ou pelo cargo). A versão 1, de 26/09, fica no histórico do git. Vale para quem codifica e para o modelo: o prompt config/prompts/professor_v2.md usa as mesmas categorias e definições, e os códigos estão em config/codebook_v2.json. O que mudou e por quê está no docs/17. Depois da calibração, mudanças só por emenda datada no fim deste guia. Os exemplos são inventados: nenhum post real aparece aqui.

Como funciona

  • O que você recebe: um arquivo cifrado com 500 posts de candidatos e partidos no Instagram (campanha de 2026), a senha dele e um código pessoal. Abra a página de rotulagem, escolha o arquivo, digite a senha e o seu código. O arquivo é aberto no seu navegador e nunca sai dele; para a planilha vão só o número do post e os seus códigos.
  • Calibração: primeiro, todos codificam os mesmos 20 posts. Depois de salvar cada um, a página mostra a resposta do gabarito (feito pela coordenação) ao lado da sua, com as diferenças marcadas e, às vezes, uma nota. A sua resposta fica gravada como está: não dá para corrigi-la depois de ver o gabarito. Use as diferenças para reler as seções do guia; é o seu treino.
  • Sorteio: depois da calibração, a página entrega um post por vez, sorteado entre os que ainda não foram codificados. Em geral cada post é codificado por uma pessoa só; alguns, sorteados, recebem uma segunda codificação independente, para medir a concordância. Você nunca recebe o mesmo post duas vezes. Codifique quantos puder: cada post conta.
  • Adjudicação: quando um post tem duas codificações que divergem, um adjudicador vê as duas e decide só os itens divergentes.
  • Tempo: de 1 a 2 minutos por post. Faça pausas; a página guarda cada post assim que você salva.
  • Na tela: o post fica parado ao lado (ou no topo, no celular) enquanto você rola as seções. Cada seção tem um botão ? com a parte deste guia que explica ela; o botão Guia, no topo, põe cada trecho ao lado da sua seção.

Regras gerais

  1. Codifique só o texto. Você vê a legenda, o nome do autor, o cargo, o formato (vídeo, foto, carrossel) e a data, que é o mesmo que o modelo recebe. Não use o que você sabe sobre o autor para preencher o que o texto não diz.
  2. Na dúvida, fique com o mais conservador: sentimento neutro, função informação, nenhum elemento marcado, alvo fora, tema nenhum, apelo religioso não. Marque a confiança baixa e explique no comentário.
  3. Hashtags, menções e emojis contam como texto do autor. #ForaLula é um alvo com postura desfavorável; 🤡 ao lado do nome de alguém pode ser ataque à pessoa.
  4. Fala citada não é do autor. Se o post reproduz um insulto para criticá-lo (“fui chamado de ladrão por quem responde a cinco processos”), o insulto citado não conta; conta o que o autor diz.
  5. Ironia conta pelo sentido. “Que beleza de governo, hein” em tom de deboche é negativo e é ataque.

1. Codificável

  • Sim: há texto em português com conteúdo que dá para interpretar.
  • Outra língua: o texto está em outra língua (um trecho em inglês num post em português ainda é “sim”).
  • Só emoji, hashtag ou menção: não há frase, só emojis, hashtags soltas ou @menções.
  • Sem conteúdo interpretável: o texto é curto demais para qualquer leitura (“📍”, “Vem!”, “Hoje”).

Se não for “sim”, o resto fica em branco: a página desliga os outros campos.

2. Sentimento

O tom predominante do texto, não a sua opinião sobre o autor.

  • Positivo: celebração, gratidão, esperança, orgulho, convite animado, agradecimento a apoiadores.
  • Negativo: denúncia, indignação, medo, lamento, crítica, ataque. Luto e condolências também.
  • Neutro: agenda, horário de live, número de urna sem emoção, texto misto sem predominância.

3. Função

Uma ou mais. As três primeiras vêm da teoria funcional do discurso de campanha (Benoit); as três últimas, dos estudos de posts de candidatos em redes (Stromer-Galley et al., 2021).

  • Aclamação: promove o autor, o partido ou aliados com um argumento: obras e realizações, qualidades, trajetória, propostas, apoios recebidos, liderança em pesquisa. Agradecer, informar agenda ou pedir voto sem dizer nada sobre o candidato não é aclamação.
  • Ataque: critica um adversário, partido, governo ou grupo político: ações, propostas ou caráter.
  • Defesa: responde a uma crítica ou acusação feita contra o autor ou seus aliados.
  • Chamada à ação: dá uma instrução ao leitor: votar (inclusive só “vote 1234”), ir a um ato, carreata ou reunião, assistir a uma live, compartilhar, seguir, comentar, doar, participar. “Vem com a gente!” conta.
  • Cerimonial: agradece, homenageia, felicita, lembra data comemorativa, presta condolências, abençoa ou brinca, sem argumento sobre o candidato.
  • Informação: só informa, sem argumento sobre o candidato e sem instrução ao leitor: agenda (“hoje, 9h, reunião em Itabuna”), horário de live, local, serviço, aviso. Vale sozinha: marcar outra função a desmarca, e vice-versa.

Todo post codificável tem ao menos uma função; se nenhuma das cinco primeiras se aplica, é informação. Um post pode ter várias: “Vote 1234, o deputado que trouxe a UBS do bairro” é aclamação e chamada à ação; “enquanto eles prometiam, nós entregamos 40 escolas” é aclamação e ataque.

4. Foco

Só aparece quando você marca aclamação, ataque ou defesa. Marque um ou os dois:

  • Imagem: o argumento é sobre a pessoa: caráter, valores, competência em geral, trajetória, família, popularidade, apoios, desempenho em pesquisa.
  • Proposta: o argumento é sobre política pública: uma proposta, uma obra, uma lei, uma ação de governo, uma posição sobre um tema.

“Trouxe R$ 2 milhões para a saúde de Feira” é proposta. “Homem honesto, ficha limpa, de família” é imagem.

5. Incivilidade

Marque cada elemento que aparece no texto do autor. São os cinco de Coe, Kenski e Rains (2014), com as definições deles:

  • Xingamento: palavras depreciativas dirigidas a uma pessoa ou grupo: ladrão, vagabundo, canalha, idiota, genocida; “comunista” ou “fascista” usados como insulto; zombar da aparência, da inteligência, da família ou da saúde de alguém; apelido depreciativo.
  • Desqualificação: palavras depreciativas dirigidas a uma ideia, proposta, política, lei ou comportamento: “proposta ridícula”, “plano criminoso”, “essa reforma é uma vergonha”, “que palhaçada essa CPI”.
  • Acusação de mentira: afirma ou insinua que uma ideia, proposta ou fala é desonesta, feita para enganar (“mentiroso”, “mais uma fake news do governo”, “promessa para enganar o povo”). Discordar de um número não basta: tem de haver acusação de má-fé.
  • Vulgaridade: palavrão ou linguagem chula, mesmo abreviada ou com asteriscos (p*rra, vtnc).
  • Pejorativo sobre a fala: desqualifica o modo como alguém fala ou se comunica: “blá-blá-blá”, “mimimi”, “chororô”, “gritaria”, “lenga-lenga”.

Crítica dura a políticas ou ações não é incivilidade: “o governo errou ao cortar verba da saúde” não marca nada. A desqualificação pede uma palavra depreciativa (“ridícula”, “criminosa”, “uma vergonha”), não só discordância.

6. Intolerância

Um construto diferente da incivilidade (Rossini, 2022): um texto educado pode ser intolerante, e um grosseiro pode não ser. Marque cada elemento que aparece:

  • Estereótipo depreciativo de grupo: generaliza de forma depreciativa mulheres, negros, indígenas, nordestinos, pessoas LGBT, evangélicos, religiões de matriz africana, pobres, imigrantes, inclusive preconceito regional.
  • Negação de direitos: defende retirar ou negar direitos de um grupo (votar, casar, se manifestar, cultuar, ser atendido pelo serviço público).
  • Ameaça: ameaça ou incita violência contra pessoa ou grupo, inclusive velada (“vai ter troco”, “sabemos onde você mora”), ou faz apologia de violência policial contra grupos.
  • Deslegitima adversário: nega a adversários a condição de participantes legítimos da democracia: chamá-los de inimigos da pátria, pedir que sejam banidos, presos sem processo ou impedidos de concorrer, ou atacar a legitimidade da eleição (“se perdermos, é fraude”).

7. Alvos e postura

Clique no nome de cada alvo desta lista citado ou claramente referido no texto e escolha a postura do autor. Os alvos que você não marcar contam como não citados: a maioria dos posts cita nenhum ou um só.

  • Favorável: elogia, apoia, pede voto. Desfavorável: critica, ataca, denuncia. Neutra: só menciona, informa ou agradece de modo protocolar.
AlvoInclui
Lula e governo federalLula, “o presidente”, o governo Lula, o PT como governo federal, ministros falando pelo governo
Flávio BolsonaroFlávio Bolsonaro (candidato); citar só ele não marca Jair
Jair Bolsonaro e bolsonarismoJair Bolsonaro, a família Bolsonaro, o bolsonarismo
Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Pablo Marçal, Renan Santos, Augusto CuryOs próprios
STF e seus ministrosO Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes ou outro ministro
Governo do estado do autorO governo do estado ou o governador atual do estado do autor
  • Referência indireta conta quando não há dúvida (“o descondenado”, “o ex-presidente inelegível”). Na dúvida, fique de fora.
  • O próprio autor não é alvo: se Flávio Bolsonaro fala de si mesmo, não marque Flávio.

8. Outros políticos, partidos ou governos

Para qualquer outro político, partido ou governo citado (prefeitos, deputados, senadores, candidatos, “PT” e “PL” como partidos, “a prefeitura de Salvador”), escreva como aparece no texto: o nome ou, se não houver nome, o cargo (“o prefeito”, “a vereadora”, “o ministro da Saúde”). Escolha a postura do autor, uma por nome ou cargo. Você não precisa saber se é aliado ou adversário do autor: isso é calculado depois, com os dados do TSE (partido e coligação de cada um). Quem já está na lista do §7 não entra aqui.

9. Tema principal

Escolha um tema: aquele de que o post principalmente trata. Os temas de política pública são os 21 grandes temas do Comparative Agendas Project, na versão do manual brasileiro, usados em estudos de agenda no Brasil e em outros países. Se o post fala de dois temas, escolha o que ocupa mais o texto.

TemaInclui
01 MacroeconomiaInflação, juros, impostos, dívida, orçamento, custo de vida, crescimento
02 Direitos civis, políticos, liberdades e minoriasIgualdade racial e de gênero, direitos LGBT, pessoas com deficiência, liberdade religiosa e de expressão, aborto, direitos políticos e voto
03 SaúdeSUS, hospitais, postos, médicos, vacinas, remédios, saúde mental
04 Agricultura, pecuária e pescaAgronegócio, produtores rurais, safra, crédito rural, pesca
05 Trabalho, emprego e previdênciaEmprego, salário, escala 6x1, sindicatos, aplicativos, aposentadoria
06 EducaçãoEscolas, creches, professores, universidades, ensino técnico
07 Meio ambienteClima, desmatamento, queimadas, poluição, saneamento, água, lixo
08 EnergiaConta de luz, petróleo, combustíveis, energia renovável
09 Imigração e refugiadosMigrantes, refugiados, fronteiras
10 TransportesEstradas, asfalto, pontes, ônibus, metrô, mobilidade
12 Judiciário, justiça, crimes e violênciaSegurança pública, polícia, facções, armas, presídios, drogas como crime, violência contra a mulher, tribunais
13 Políticas sociaisBolsa Família, assistência social, fome, programas para crianças, famílias e idosos
14 Habitação, infraestrutura e reforma agráriaMoradia, obras urbanas, urbanização, reforma agrária
15 Sistema bancário e comércio internoEmpreendedorismo, pequenas empresas, comércio, crédito, consumidor
16 Defesa e forças armadasExército, Marinha, Aeronáutica, militares, guerra
17 Ciência, tecnologia e comunicaçõesInternet, redes sociais, inteligência artificial, pesquisa científica
18 Comércio exteriorExportações, importações, tarifas, tarifaço
19 Relações internacionais e política externaOutros países, guerras, diplomacia
20 Governo e administração públicaCorrupção no governo, gestão pública, relação entre os Poderes, regras eleitorais, anistia, 8 de janeiro, defesa da democracia
21 Território e recursos naturaisTerras indígenas, demarcação, mineração, recursos hídricos
23 Cultura, esporte e lazerMúsica, festas populares, arte, esporte, turismo

Sem tema de política pública:

  • Campanha: a corrida eleitoral em si: pesquisas, apoios e alianças, agenda, comícios, carreatas, debates, pedido de voto sem tema.
  • Pessoal: vida pessoal e trajetória do autor: família, fé pessoal, aniversário, bastidores, história de vida.
  • Nenhum: nenhum dos anteriores (felicitação de data, texto sem assunto).

10. Apelo religioso ou moral

Sim se o texto invoca Deus, fé, igreja, oração, Bíblia ou valores morais e de família como razão ou identidade (“Deus acima de todos”, “em defesa da família”, “que Deus abençoe nosso estado”, versículo bíblico); não se não. Vale mesmo quando o tema principal é outro: religião e costumes atravessam vários temas nesta eleição.

11. Mídia, confiança e comentário (só para humanos)

  • Precisaria ver a imagem ou o vídeo para entender: marque quando o texto remete a algo que só a mídia mostra (“olha o que ele disse 👇”). Codifique mesmo assim, só pelo texto.
  • Confiança: alta, média ou baixa, sobre a sua codificação deste post como um todo.
  • Comentário: livre. Use para dúvidas sobre o guia; elas alimentam as emendas.

Exemplos inventados

  1. “Hoje entregamos a reforma da UBS do Jardim das Flores! Saúde de verdade se faz com trabalho. 💙 #Vote4455”: positivo; aclamação e chamada à ação; foco proposta; tema 03 saúde; apelo religioso não.
  2. “Enquanto o governo federal aumenta imposto, a família paga a conta no mercado. Chega!”: negativo; ataque; foco proposta; alvo Lula e governo federal, desfavorável; tema 01 macroeconomia; apelo religioso não (“família” aqui é quem paga a conta, não valor moral).
  3. “Esse vagabundo do prefeito sumiu com o dinheiro da merenda. Mentiroso!”: negativo; ataque; foco proposta e imagem; incivilidade xingamento e acusação de mentira; outros: “prefeito”, desfavorável; tema 20 governo (corrupção).
  4. “Me acusam de faltar às sessões. Estive em 98% delas, e a ata está no link da bio.”: neutro; defesa; foco imagem; sem alvos; tema campanha.
  5. “Nordestino que vota no PT é tudo analfabeto.”: negativo; ataque; foco imagem; intolerância estereótipo; incivilidade xingamento; outros: “PT”, desfavorável; tema campanha.
  6. “Se o resultado não for o nosso, é fraude. Eles não podem voltar.”: negativo; ataque; foco imagem; intolerância deslegitima adversário; sem alvo nomeado; tema 20 governo (regras eleitorais).
  7. “Agenda de hoje: 9h carreata em Itabuna, 15h reunião com lideranças. Bora!”: positivo; chamada à ação; tema campanha. Sem o “Bora!”, seria neutro e informação.
  8. “Obrigado, Feira de Santana! Deus abençoe cada um de vocês 🙏”: positivo; cerimonial; tema nenhum; apelo religioso sim.
  9. “Ao lado do prefeito Bruno Reis, que faz um trabalho incrível por Salvador!”: positivo; aclamação; foco imagem; outros: “Bruno Reis”, favorável; tema campanha.
  10. “🙏🙏🔥 #13 #Juntos”: codificável só emoji, hashtag ou menção.
  11. “Essa reforma tributária é uma vergonha. Mais uma promessa para enganar o povo.”: negativo; ataque; foco proposta; incivilidade desqualificação e acusação de mentira; sem alvo nomeado; tema 01 macroeconomia.
  12. “Hoje, 19h, live no meu perfil com o professor Carlos.”: neutro; informação; outros: “professor Carlos”, neutra; tema campanha.

Atalhos de teclado

TeclaAção
1, 2, 3Sentimento negativo, neutro, positivo
A, T, DLiga e desliga aclamação, ataque, defesa
C, H, FLiga e desliga chamada à ação, cerimonial (homenagem), informação
I, PLiga e desliga foco em imagem, em proposta
R, NApelo religioso ou moral: sim, não
7, 8, 9Confiança baixa, média, alta
MPrecisaria ver a mídia
EnterSalvar e ir para o próximo (no campo de nomes, Enter acrescenta o nome; no comentário, não salva)
GMostrar ou esconder o guia ao lado das seções
EscFechar a janelinha de ajuda (?)

Emendas

Nenhuma ainda. Cada emenda tem data, o item que muda e o motivo, e vale a partir da data para humanos e para o modelo.